A viagem começou antes da mala fechar, entre planos, bordados, sonhos e expectativas: o coração adiantava-se na pressa de aconchegar a primeira neta — pequena luz acesa no mundo. O caminho parecia estirar um tapete de silêncios, desses que invocam a alma a recordar o que ainda não viveu. Cada voo era uma promessa em direção ao sol.
Chegar a Campo Grande foi como entrar em um verde pulmão. As manhãs ali nasciam com orquestras — quero-queros em coro na praça, outros pássaros riscavam o céu com cantos de proteção, araras costuravam suas melodias nas copas das palmeiras. O despertar ali abria o coração, como janelas da memória abrindo-se para a brisa passar.
Pelas avenidas e ruas, pequenas árvores pendiam seus tesouros – acerolas pingando sol, pitangas com cheiro de infância, amoras manchando as mãos de um tempo macio. Os arbustos com suas flores brancas, amarelas, rosas, roxas oferecendo generosidade em cada flor.
Caminhar por essas vias foi como atravessar um sonho que se realizou sem pedir licença. E no fim dessa trajetória — ou talvez no início de todas as outras - Liana - primeira neta. Tão pequenina e tão completa. Com ela nos braços, a viagem fazia muito sentido: foi para esse instante que a cidade acordou, que os pássaros cantaram, que as árvores frutificaram e floresceram. Para esse encontro, o mundo se desenhou com cuidado e delicadeza.
Por fim, viajar é (re) viver, tem sempre sabor de começo, de encontro, de abraço. Essa viagem, em especial, não nos levou apenas a outra cidade, nos levou a um novo jeito de existir e de caminhar.